As portas para a Graça


Segundo Elaine Storkey, a pergunta “Responda rápido, como é Deus?” foi feita por uma menininha que fora correndo até seu irmão recém-nascido ainda na maternidade. Ela, muito esperta, imaginara que, tendo acabado de chegar do céu, poderia ter alguma informação privilegiada.
Porém, quando leio sobre a vida de Jesus, um fato sempre me surpreende: o grupo que mais o enfurecia era o grupo com o qual, pelo menos externamente, ele mais se parecia. Estudiosos concordam que Jesus combinava muito com o perfil de um fariseu. Ele obedecia a Torá, ou Lei Mosaica, citava  fariseus importantes e, muitas vezes, ficava com eles em discussões públicas. Todavia Jesus escolheu os fariseus como alvo de seus mais violentos ataques. “Serpentes!”, ele os chamou. “Raça de víboras! Hipócritas! Guias cegos! Sepulcros caiados!”
O que provocava estas explosões?  Os fariseus tinham muito em comum com o que conhecemos hoje como “Igrejas de doutrina salgada”. Ele dedicavam a vida para seguir a Deus, devolviam o dízimo exato, obedeciam a todas as minuciosas leis da Torá e enviavam missionários para conseguir novos convertidos. Raramente envolvendo-se com pecados ligados ao sexo ou com crimes violentos, os fariseus eram cidadãos-modelo.
Contudo, do começo ao fim Jesus condenou  a ênfase dos legalistas em exterioridades. “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade”, disse certa vez. Expressões de amor a Deus, com o passar do tempo, haviam se tornado em maneiras de impressionar os outros. Nos tempos de Jesus as pessoas religiosas tinham semblantes macilentos e famintos durante um breve jejum, oravam solenemente em público e levavam porções da bíblia amarradas ao corpo. Durante o sermão do monte Jesus denunciou os motivos por trás destas práticas aparentemente inocentes.
Leon Tolstoi, que combateu o legalismo a vida inteira, compreendeu as fraquezas de uma religião baseada em exterioridades. Segundo ele, todos os sistemas religiosos tendem a promover regras externas, ou seja, moralismo. Jesus pelo contrário, se recusou a definir um conjunto de regras que seus seguidores pudessem cumprir com um sentimento de satisfação. A prova da maturidade espiritual argumentava Tolstoi, não é a “pureza” que se tem, mas, sim, a consciência da própria impureza. Essa consciência abre a porta para a Graça.

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