A
arte natalina representa a família de Jesus como imagens em lâminas de ouro,
mostrando uma tranquila Maria recebendo a notícia da anunciação como uma
espécie de benção. Mas isso tem muito a ver com a história contada por Lucas.
Maria ficou muito perturbada com a aparição do anjo, e, quando ele pronunciou as sublimes palavras acerca do Filho do
Altíssimo cujo reino nunca terá fim, Maria tinha algo muito mais terreno em
mente: Mas eu sou virgem!
No
Brasil atual, onde cada ano uma quantia exorbitante de garotas engravidam fora
do casamento, a condição de Maria sem dúvidas perdeu um pouco de sua seriedade,
mas, em uma fechada comunidade judaica do primeiro século, a notícia trazida
pelo anjo não poderia ser totalmente bem-vinda. A lei considerava adúltera,
sujeita a pena de morte por apedrejamento, uma mulher comprometida que
engravidasse.
Depois
de alguns meses ocorreu o nascimento de João Batista, em meio a muita festa, em que não faltaram parteiras,
parentes próximos e o tradicional coro da aldeia celebrando o nascimento de um
judeu do sexo masculino. Seis meses mais tarde Jesus nasceu longe de casa, sem
parteira, sem parentes, e sem a presença de um coro. Um representante masculino
de uma família seria suficiente para o censo romano; Teria José arrastado
consigo sua mulher grávida para Belém a fim de poupá-la da ignomínia do parto
em sua aldeia natal?
Hoje,
quando leio os relatos do nascimento de Jesus, tremo ao pensar no destino do
mundo repousando na reação de dois simples camponeses do interior. Quantas
vezes Maria recapitulou as palavras do anjo, enquanto sentia o Filho de Deus
chutando as paredes de seu útero? Quantas vezes José suspeitou de seu próprio
encontro com um anjo (apenas um sonho?) enquanto suportava a profunda vergonha
de viver entre aldeões que podiam ver nitidamente a transformação no corpo de
sua noiva.


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