Trabalho
em um hospital como enfermeiro há aproximadamente 5 anos e nesse tempo já
presenciei a felicidade da vitória de alguém frente a morte mas também as agruras
de quem perde esta batalha dia a dia. Não é incomum a visita de sacerdotes que
fazem orações suplicantes a Deus pela cura ou ao menos pelo alento do paciente
que ali se encontra. Certa vez passei a tarde pensando em como seria quando e
se chegasse a esse ponto em minha vida, digo hospitalizado, ou se meus entes
mais queridos acabassem passando por isso. Gabo-me freqüentemente de não temer
a morte, mas evidentemente digo isso porque ela para mim parece distante e não
uma realidade palpável a curto prazo. De qualquer forma pensei em muitas
situações que me faria questionar a justiça divina:
E se
meu filho nascesse com uma moléstia terminal? E se minha esposa fosse arrancada de meus braços por uma fatalidade? E
se eu morresse amanhã antes de completar os milhares de sonhos que guardo em
meu íntimo? Para cada uma destas situações confesso que me enfureceria
muito com Deus, e considerava isso um de meus grandes defeitos até ler um
trecho de um texto de Roy Lawrence o qual peço licença humildemente para transcrever:
“Tenho
o privilégio de ser sócio de um grupo na Inglaterra chamado Associação Santa
Columba. Seus membros atuam como atendentes ou exercem outras funções em
hospitais para pacientes terminais. Minha mulher e eu as vezes somos convidados
para falar nos encontros da associação.
Numa
dessas ocasiões, ouvimos o capelão desses hospitais contar a história de um
paciente que pediu para conversar com ele porque sentia profunda angustia.
Estava nos estágios terminais de um Câncer e sentia muita culpa por ter passado
a noite anterior xingando, delirando e blasfemando contra Deus. Na manha
seguinte, sentiu-se péssimo. Imaginava que a probabilidade de obter a vida
eterna a essa altura era definitivamente nula, pois Deus jamais perdoaria
alguém que o amaldiçoara e ofendera.
O
capelão perguntou ao paciente:
-O
que é, em sua opinião, o oposto de amor?
-Ódio
(Respondeu o homem).
Com
muita sabedoria o capelão replicou:
-
Não, o oposto de amor é indiferença. Você não foi indiferente para com Deus,
caso contrario não teria passado a noite falando com ele, dizendo-lhe com
sinceridade o que estava em seu coração e sua mente. Você sabe qual a palavra
cristã para descrever o que você fez? É oração. Você passou a noite orando.”
A
impressão que tenho é que, para alguns, perante a morte toda religiosidade cai
por terra.
Ainda
bem!


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