Quem
nunca assistiu aquela série da emissora da raposa que fala sobre “mortos
andantes”? Pois é, eu já! Analisando o porquê de acompanharmos séries como esta
me parece que nossa expectativa se baseia em curiosidade, puro lazer e
esperança. Sempre queremos que o “mocinho” se dê bem no final para que possamos
dormir tranquilos e saber que, no fim o bem prevalece, no fim as coisas darão
certo e, se não deram ainda é porque certamente não chegamos ao fim. Mas e
quando parece que nada vai melhorar? E quando vem a dor?
Tempos
atrás lí algo sobre a caminhada de Robin Graham, a pessoa mais jovem que
navegou dando a volta ao mundo sozinha. Com apenas 16 anos Robin deu inicio em
uma longa e inusitada jornada que lhe renderam a lateral de um barco partido
durante uma violenta tempestade, um mastro quebrado ao meio por uma onda
traiçoeira e a quase morte quando varrido por um jato d’água. Passou por um
enorme desespero quando, em meio à calmaria equatorial, sem sinal de vento
algum não podia movimentar-se. Foi então que esvaziou uma lata de querosene a
ateou fogo ao barco pulando no mar em seguida. Para seu contentamento um pé
repentino de vento soprou nesse momento fazendo-o mudar de ideia a tempo de
voltar ao barco, sufocar o incêndio e prosseguir viagem.
Depois
de cinco anos Robin aportou com sua embarcação em Los Angeles para ser
recepcionado por barcos, multidões, buzinaços, repórteres e estrondosos apitos
a vapor. A alegria daquele momento atingiu um nível superior a qualquer outra
alegria que ele viveu anteriormente. Tal alegria nunca seria sentida no retorno
de um passeio normal. Foi a agonia de sua viagem dando a volta ao mundo que
possibilitou o júbilo de seu triunfante retorno, agora como um homem de 21
anos.
Nós,
cidadãos modernos, em nossos meios controlados pelo conforto, temos a tendência
de atribuir nossa infelicidade à dor, que identificamos como o grande inimigo.
Se de algum modo pudéssemos extirpar a dor, a fome e as injustiças de nossa
vida, aí então seríamos felizes. Mas
como mostra a vida de Robin e de muitas outras pessoas que conhecemos a vida não se rende a essa
divisão simplista. A dor é parte do tecido inconsútil de sensações e muitas vezes
um prelúdio necessário do prazer e da realização. Talvez, o segredo da
felicidade não esteja tanto no esquivar-se da dor a qualquer custo, mas no
entendimento de seu papel como um sistema de alerta protetor e na subordinação
dela para que trabalhe em nosso benefício e não contra nós.


